Salve bLC!
Era 20h do dia 05 de dezembro de 2009, sentei na Pizzaria do Porto, no Barro Preto, acompanhado de minha namorada, pedi dois nhoques, uma cerveja pra mim, uma soda pra ela e um maço de Free. Tinha encontrado a Gabriela há pouco tempo, após voltar de uma pelada na TOCA II.
Assim que chegou a cerveja reparei na tv um jogo entre times alvinegros. Vi um gol apenas, o último, um gol de pelada. Comentava o jogo com um senhor de 55 anos, pateticano, típico sofredor. Passei-me por sofredor também, afirmava que o time era um lixo, que não vencia ninguém e que o “Presidente Boquirroto” tentava iludir a torcida.
Em meio ao diálogo, uma cena que jamais vou me esquecer. Ele pediu sua segunda cerveja e simplesmente falou:
“Foram 54 anos assim, apenas em 71 foi diferente.”
E prosseguiu:
“Antes os nossos adversários nos temiam, hoje somos motivo de chacota, eu não sei por que sou atleticano, não sei por que gosto tanto deste time preto e branco e muito menos por que estou aqui sentado, em um dia de chuva, falando com um desconhecido e com a namorada que meu time não vale nada, todos já estão cansados de saber disso. Acho que não serei mais atleticano. Garçom a conta!”.
Cheio de nhoque e cerveja, acendi mais um cigarro e passei na casa de um amigo que me acompanharia em uma longa viagem que estava por vir.
Fomos ao Extra, compramos cerveja, gelo e isopor, minha namorada me deixou, aguardava a saída do ônibus de frente à Sede Administrativa do Cruzeiro, no Barro Preto, debaixo de chuva, se amontoavam torcedores e torcedoras (sim! Tínhamos 3 mulheres em um ônibus com 50 marmanjos!) que esperavam ansiosamente o começo da viagem.
Logo que entramos começamos a beber, entoávamos os cânticos de amor ao clube e saímos entoando em uníssono o hino do clube alviceleste estrelado.
O clima era de festa, o ex-rival citadino havia levado uma baita “traulitada”, já tínhamos garantido a posição à frente das frangas e bastava apenas uma combinação de resultados, combinação complicada, mas possível para que fossemos, pela terceira vez consecutiva, ao maior torneio da América.
Em São Paulo, muita gente “virada”, pessoal eufórico, meio cansado pela viagem, porém animados com a perspectiva de irmos a Vila Belmiro, estádio pequeno, de difícil acesso, jogo entre duas torcidas “inimigas” e o clima já estava tenso em Santos, pois o presidente (agora ex) Marcelo Teixeira perdeu as eleições para Luis Álvaro e as torcidas organizadas santistas estavam em pé de guerra.
Logo após o almoço, saímos da porta da sede de uma torcida organizada amiga e rumamos à Santos. Daí por diante a tensão tomava o lugar da euforia...
Parados por policiais após ficarmos perdidos em São Paulo, nos perdemos também dos outros ônibus das outras organizadas e a polícia (que nos prometeu a escolta) também atrasou a escolta.
Escoltados até o primeiro pedágio na Emigrantes, encontramos os ônibus e a escolta da polícia, rodeados de carros, com homens armados, víamos a frente mais 13 ônibus de torcedores celestes.
Chegamos na serra, tínhamos agora que desce-la, com certeza o momento mais tenso da viagem, pois lá é simples de se fazer um emboscada e já tínhamos ouvido muitas histórias de problemas por lá.
Após o tortuoso e sinuoso caminho chegamos a Santos, cidade feia, mal planejada, suja e que se resume no porto, começa nossa decepção.
Providenciamos a separação do dinheiro do ingresso e deixamos uma pessoa de confiança para comprá-los, fomos parados e foi feita a revista em todos os ônibus. Revista às vezes excessiva e até mal educada, porém costumeira e necessária para o tipo de situação.
Liberados! Sim podíamos subir para a Vila, faltava dez minutos para o jogo, porém após a partida de alguns, 7 ônibus ficaram, o meu, o penúltimo da fileira, foi um dos que ficou.
A tensão na Vila aumentou e virou briga, as facções da torcida santista brigavam por causa da eleição e os policiais acharam por bem não nos liberar (acredito que não tinham o contingente para nos levar com segurança ao estádio e dar segurança aos que já estava nele).
O martírio começou, ao voltarmos para o ônibus, escutamos de longe, pela rádio Jovem Pan que Wellington Paulista abriu o placar, a alegria incontida dentro do ônibus e a ansiedade aumentavam.
Passamos mais de uma hora na mesma posição, saímos e entrávamos nos ônibus, sempre renovando a esperança para liberação. E quando já tínhamos 10 minutos de jogo do segundo tempo fomos liberados. Já tínhamos recebido a notícia de que não veríamos o jogo, de que todo o dinheiro gasto e o imenso sacrifício tinham sido em vão.
Porém recuperamos a força e rumamos ao campo, chegando lá muitos carros garantiram nossa segurança.
Não tinha a mínima noção de tempo e logo que entrei me deparei com o campo, bem próximo, e...Gol...gol do Santos, Neymar...sonho da Libertadores estava distante e entrei no campo apenas para ver que não aconteceria nada...
Me situei e vi que tínhamos então, 4 zagueiros, três volantes e dois atacantes (com a entrada de Kleber), vi que a pressão ocorria, porém sem nos levar medo algum...
Em uma jogada de rara precisão, Kleber finalizou de forma perfeita e nos levou a loucura, cantávamos muito quando o alto-falante anunciava Botafogo 2 X 1 Palmeiras.
Logo o jogo terminou, aí todo o cansaço, o stress a chateação e a tensão deu lugar a alegria, a euforia e principalmente ao êxtase!
Tudo deu certo, os porcos perderam, Kleber tirou os porcos da Libertadores, Cruzeiro estava de volta a Libertadores, os cornetas se calariam, o futebol que nos reservou momentos de tristeza dentro do Mineirão, nos deu a alegria de darmos o troco em torcedores que utilizam camisas de vários times que chegaram a glória de ganhar de nós.
Ficamos no estádio por 1h e meia mais ou menos, cantávamos, saudávamos nossos atletas e principalmente nosso treinador e a maior desavença de parte da torcida, o atacante que ostenta a camisa 30, criticado e xingado, deu o troco em campo.
Juntamente com ele Adilson Batista, odiado por poucos, idolatrado por muitos.
Rumamos para BH, chegamos fazendo festa, cantando muito e os que conseguiram emendar o feriado de dia 8 estão na rua soltando foguetes, já eu, não consegui folgar, tive compromissos de última hora, cansado e gripado estou aqui na empresa, digitei o texto em 20 minutos, espero que entendam, que saibam quanto é espetacular largar tudo para ver o nosso time, pois faço isso por amor, dou a vida pelo Cruzeiro, farei isto eternamente, amando-o para sempre, nada pode me deter! Olê, Olê, Olê, Olê, Olê...
Walter Seixas
walter.sn@hotmail.com
Torcedor que tem nas veias o sangue azul do clube amado e no peito cinco estrelas que carrega com amor. Que não importa onde o Cruzeiro for jogar, por toda vida vai acompanha-lo e que sempre verá as frangas perder e chorar!